quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O Pastor do Salmo e o Salmo do Pastor


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Ricardo Mello

A metáfora do pastor e seu rebanho é freqüentemente usada nas Sagradas Escrituras. O Senhor Deus é comparado a um Pastor.

Em Gênesis 49.24, ele é chamado de o Pastor, o Rochedo de Israel. Isaías 40.11, diz que o Senhor como pastor apascentará o seu rebanho; nos seus braços recolherá os seus cordeirinhos, e os levará no seu regaço; as que amamentam, ele guiará mansamente. Jeremias 31.10 diz que aquele que espalhou a Israel o congregará e o guardará, como o pastor ao seu rebanho. Ezequiel 34.11,12 também declara: Pois assim diz o Senhor Deus, eu mesmo… como o pastor busca o seu rebanho… assim buscarei as minhas ovelhas.

Pastor, portanto, é alguém que cuida de ovelhas. No hebraico a palavra correpondente é raah, que carrega a idéia de “cuidar dos rebanhos”, “alimentar”. No Novo Testamento, o vocábulo grego correspondente é poimen, um substantivo que aparece em Efésios 4.11, onde o pastor é apresentado como um dom de Deus dado à igreja.

O Senhor Jesus Cristo também é descrito como um Pastor. Ele referiu-se a si mesmo como o bom pastor, aquele que dá a vida pelas ovelhas (João 10.11). O escritor da carta aos Hebreus descreve Jesus como o grande pastor das ovelhas (Hebreus 13.20), e o apóstolo Pedro, por sua vez, o define como o Pastor e Bispo das nossas almas (1 Pedro 2.25).

Cuidar de ovelhas na época do Antigo Testamento, podia significar um trabalho diário, disciplinado e, por vezes, estafante. O pastor precisava encontrar pasto e água numa terra, muitas vezes, árida e pedregosa. Ele também precisava proteger o seu rebanho das intempéries do tempo, especialmente do frio da noite, do sol escaldante e dos predadores. Tinha também que recuperar qualquer ovelha que se perdia, tendo, na maioria das vezes, uma tenda como casa.

Davi conhecia essa rotina muito bem. Ele aprendeu a desempenhar cada uma dessas funções cuidando do rebanho do seu pai. E foi ali, provavelmente, na companhia das suas ovelhas, no calor do dia ou na friagem da noite, que ele deve ter escrito uma boa parte dos seus salmos, dentre eles o mais conhecido de todos, o Salmo 23. Assim ele compara o cuidado do pastor para com as suas ovelhas, com o cuidado do Pai celestial para com os seus filhos. Nisso concorda Jeremias 29.11, que diz “Pois eu sei os planos que tenho para vós, diz o Senhor, planos de paz, e não de mal, para vos dar uma esperança e um futuro”.

Eu creio que foi nesse ambiente que Davi escreveu:

"O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Ele me faz respousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; Refrigera a alma. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre."

O Senhor, como bom Pastor, conduziu o povo de Israel rumo à terra prometida. Ele não deixou faltar nada que fosse necessário para a travessia do deserto. Durante todo esse tempo não houve um dia sequer que ele não tenha enviado o maná para alimentar o povo, ou feito brotar água da rocha, mesmo quando eles foram infiéis, e murmuraram, e desejaram voltar ao Egito. Por quarenta anos, nem mesmo as suas vestes se envelheceram, nem as sandáias dos pés se estragaram (Deuteronômio 29.5).

Sabemos que jamais faltará nada que seja necessário para que seja cumprida em nós a Sua boa, perfeita e agradável vontade. Na caminhada rumo à Jerusalém celestial não faltarão provações, aflições, lutas e tribulações, porque nelas eu encontro motivos para me gloriar, sabendo que ao final terei a minha esperança renovada, a perseverança desenvolvida, e o amor de Deus derramado em nossos corações, conforme nos ensina o apóstolo Paulo em Romanos 5.3-5, Tiago 1.2, e o próprio Senhor Jesus quando disse: “…no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo! Eu venci o mundo” (João 16.33).

Nada faltará àqueles que estão em Cristo Jesus. Não faltará o pão de cada dia, nem descanso, nem refrigério, nem justiça, nem segurança, nem honra, nem consolo, nem paz, nem tribulações, nem provas e aflições, porque temos por certo que “ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide, ainda que o produto da oliveira falhe, e os campos não produzam mantimento, ainda que as ovelhas sejam exterminadas e nos currais não haja gado, todavia eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação” (Habacuque 3.17-18). Pois em todos os dias da minha vida “a sua bondade e o seu amor me seguirão”, o seu acolhimento, a sua presença e intimidade estarão comigo, “e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”.

Conta-se que um poeta foi convidado para, ao final de uma solenidade, recitar o Salmo 23. No alto da sua capacidade de impostar a voz, de controlar a respiração e de usar todos os recursos que podiam dar beleza à execução, ele termina a sua apresentação em grande estilo e arranca da platéia aplausos calorosos, enquanto é ovacionado demoradamente.

Ali, na primeira fila, assistia a tudo um velhinho, já de cabelos embranquecidos, que logo em seguida, solicita ao coordenador do evento para também recitar o Salmo 23. Ele tenta demover o ancião de tão inoportuno pedido. Argumenta, mas ele insiste, e talvez pelo respeito à idade, acaba por conceder.

Aquele senhor sobe na plataforma com o rosto marcado pelo tempo, cheio de rugas e de histórias acumuladas em quase um século de existência, e começa a recitar o mesmo Salmo 23.

À medida em que ele recitava pausadamente o Salmo, um profundo silêncio se derramou sobre o auditório, e que foi se convertendo em comoção e soluços, de modo que ao terminar a última frase do Salmo, ninguém aplaudiu, mas todos, estavam ali com lágrimas nos olhos, depois que um profundo espírito de quebrantamento caiu sobre aquele lugar.

Aquele jovem poeta agora corre para a plataforma, lança-se aos pés daquele desconhecido ancião, e chorando, pergunta: “O que é que voce tem que eu não tenho? Eu estudei nas melhores escolas e aprendi a recitar. Eu consigo arrancar aplausos das pessoas, mas voce tocou a alma delas, o que voce tem, que eu não tenho?”.

O velhinho olha para ele com um olhar terno e diz: “A diferença, meu filho, é que voce conhece o “Salmo do Pastor”, mas eu, conheço o “Pastor do Salmo””.

A unção está na intimidade. Foi na intimidade com o Pastor das nossas almas que Davi escreveu este Salmo. Todos nós somos chamados para conhecer o “Pastor do Salmo” e não somente o “Salmo do Pastor”.


Fonte

Um comentário:

Pastor Marcello Matias disse...

muito bom ... gostei muito... se puder... me siga também e me ajude a divulgar...

prmarcello.blogspot.com

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